Estranho Cemitério Eletrônico

Hoje chegou ao fim uma parceria de dez anos. Meu primeiro computador “morreu”. Chegou ao fim de sua vida. Um Pentium III que vendi por oitenta reais a um rapaz que comprava eletrônicos usados, estejam funcionando ou não. Após conversamos via celular e combinarmos tudo, lá fui eu. Chegando em seu apartamento em Botafogo, me recebeu em sua cadeira de rodas. Usava um colete de couro que envolvia toda sua coluna, mal coberto por uma camisa velha, além de uma cueca. Sua mãe exalava trambique. Poderia sim ser uma mulher honesta, mas a maneira como falava e se portava não dava nenhuma credibilidade à tal possibilidade. Respirei fundo devido à inesperada cena e dei prosseguimento ao combinado. Adentrei no apartamento, imaginando algumas vezes como eles me matariam, vide que todas as janelas estavam com folhas de papel de tom pastel coladas nos vidros, além de todo o chão do apartamento coberto por folhas de jornais. Talvez devido ao três enlouquecedores poodles que, presos na cozinha, não paravam de latir. O cheiro de cachorro limpo, porém molhado, vinha de todos os cantos da casa. As cortinas a qualquer momento iriam ao chão, devido ao aspecto podre.

O cenário perfeito para um filme de George A.Romero misturado com o Massacre da Serra Elétrica (A versão original, é claro) e eu lá, esperando pelo poodle monstro que a qualquer momento surgiria da cozinha ou qualquer outro ineditismo maquiavélico. Ele e a mãe se tratavam por berros e xingando, exatamente como aqueles personagens nojentos de muitos filmes de terror que a gente ri, não acreditando que tais possam existir. Pois é, existem. E eu ali parado, com um leve sorriso no rosto, torcendo para que não me matassem e vendessem meus órgãos.

Adentramos em seu quarto, que mais parecia um depósito/cemitério hacker. Pediu para que o deixasse junto aos outros. Dezenas de computadores e caixas de papelão por todos os lados. Singular cemitério onde enterrei o corpo do meu primeiro amigo eletrônico.

Exatos dez anos atrás havia ganho de meus pais. Na época era um super computador. Com ele aprendi a construir homepages, editar e remixar músicas, trabalhar no Photoshoo, Corel Draw e muitas outras coisas. Entendi o mundo virtual, mesmo que através da internet discada e escrevi três livros. Conheci pessoas, amadureci, ganhei dinheiro… Até que um dia ele ficou velhinho. Não atualizava suas peças ao longo do tempo. Programas tornaram-se complexos demais para sua configuração. Pouco a pouco seus recursos diminuíram até transformar-se numa máquina de escrever eletrônica. Seu nome era Bono (Por causa do Bono Vox, vocalista do U2). Seu HD era particionado em três partes Bowie (David Bowie), Cave (Nick Cave & The Bad Seeds) e Manson (Marilyn Manson). Quanto ao laptop? O batizei de Morten (Morten Harket, vocalista do A-Ha)

Naquela mesma semana, ao chegar em casa e não me deparar mais com aquele monstro branco que me trouxe tantas alegrias e descobertas, apesar de feliz com a atualização, lá no fundo bateu uma pontinha de tristeza. Ainda estava apegado àquele trambolho branco. Mas as coisas têm que ir para que novidades cheguem em nossas vidas, não? Ninguém toma banho com a mesma água.

Anos depois, troquei de laptop. Foi muito mais simples e quase sem sentimento. Não há como não se apegar à um objeto que simboliza tantas coisas e nos ajuda a concretizar ideias e planos.

Agora, quanto àquela casa para onde o levei, nunca mais tive notícias. Melhor assim. Talvez tenham sido mortos pela criatura que habitava o quartinho da cozinha. Ou se mataram após tanto gritarem um com o outro.

Amo filmes de terror. São minha vida. Mas não quero vivenciar nenhuma das histórias que compõe o gênero. #risadasdemoníacas

Ao som de David Bowie – Space Oddity

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