Chapada dos Veadeiros

 

Quando falamos de Brasília e Goiás, muitos (eu sim) pensam em lugares distintos e não que a cidade de Brasília está no estado de Goiás (Apesar de ser uma unidade da federação separada). E estando na cidade satélite, tal pensamento se fortalece pois o brasiliense diz: Lá em Goiás. Como se fosse outro lugar. Ouvi de variados brasilienses que não gostam de dizer que Brasília é parte de Goiás. Mas ninguém disse o porquê. Caso saiba REALMENTE, me diga.
Curioso, não? É como Fernando de Noronha, jamais associamos a ilha como parte do estado de Pernambuco.
Então, após sete anos, retornei à cidade satélite para um rápido trabalho. Assim que terminei, queria visitar parentes e amigos, que logo descobri, para minha sorte, serem vizinhos. Excelente!!! Um dia na casa de um e outro dia na casa do outro. Cronograma fechado.
O carro me deixou na casa da minha minha amiga. Minutos após sentar em seu sofá, lembrei de quando, ainda no Rio de Janeiro, comentei que estava viajando para Brasília e uma amiga perguntou se eu iria à Chapada.

Peguei meu computador e comecei a pesquisar, o que me deixou mega confuso. Era tanta informação que eu não sabia por onde começar. Apenas a certeza de que queria ir.
Minha amiga, super preocupada, me apresentou todos os prós e contras enquanto eu lia sobre uma cachoeira, possibilidades quanto a onde dormir e passagens de ônibus.
Queria ir direto para a cidade de Cavalcante, mas como só tinha UM Ônibus por dia de Brasília para lá, minha opção era ir para Alto Paraíso.
O ônibus sairia às 19:30 da rodoviária interestadual, lugar por onde o metrô passava (Pelo menos isso né. Pensar que o metrô não vai até o planalto é um tanto quanto bizarro).Teresina
Decidi que iria. Meus conhecimentos sobre a chapada? Sabia que existia (assim como a cachoeira de águas esmeraldas) e nada mais.
Conhecimento zero e vontades mil. Era o suficiente. Enquanto ela continuava falando sobre os possíveis preços dos passeios e estadias, decidi ir.
Peguei o básico e parti rumo à rodoviária.
Onde ficar? Não sei.
Onde dormir? Não tenho a menor ideia.
O que fazer lá? Meu foco principal era conhecer a cachoeira de Santa Bárbara, uma cachoeira de águas esmeraldas e, a partir daí, o que acontecesse seria incrível.
Adentrei no ônibus levando uma mochila e um litro de suco de laranja que ela, mega preocupada, me deu.
Milhares de pensamentos corriam por minha cabeça. O que estava fazendo? E se desse tudo errado? O que aconteceria a partir dali? O tiro no escuro foi dado.
Mas eu gosto de viver assim, fechar os olhos, segurar firme nos meus sonhos e me atirar. Quanto mais tempo passa, mais exijo de mim não ter medo.
O medo limita e permite que eu fortaleça amarras que impossibilitam o próximo passo.
Chegando na Rodoviária, procurei por um mapa da Chapada, mas tudo que consegui foi uma conversa muito animada de quase meia hora com o casal que trabalhava na livraria do local.
Ouvindo Texas (Uma de minhas bandas preferidas), admirava o incrível céu noturno rumo à cidade de Alto Paraíso. E falando sobre o céu, ainda não vi céu mais bonito do que o de Brasília e dos lugares por onde passei em Goiás.
Após três horas e meia de viagem, cheguei em Alto Paraíso.
Quase 23 horas de uma terça feira. Ruas desertas. Clima típico de cidades pequenas. A cidade era muito menor do que eu imaginava. A possibilidade de deixar minha mochila no guarda volumes e carregar apenas carteira e óculos escuros morreu naquele instante, pois a rodoviária eram três ou quatro guichês, uma lanchonete e dois banheiros.
Fui até a lanchonete e conversei com uma moça, que me indicou uma pousada não muito longe dali.
Enquanto andava, perguntava a quem quer que encontrasse sobre alguma pousada bem barata. Afinal, cada pessoas era uma possibilidade a mais. Caso não encontrasse nenhuma, abraçaria minha mochila e dormiria no banco da praça.
Meu único receio era não poder recarregar o celular e registrar a aventura.
Andei por algumas quadras, atravessei a BR e me deparei com a pousada Menina Lua. Liguei, fui atendido e paguei por um quarto sem café da manhã, pois queria sair antes do nascer do sol.
Queria estar na BR para observar o amanhecer. Aquele céu era bonito por demais para não ser admirado. E não estava errado.
Às cinco e pouco da manhã já estava na rua e em meio à silenciosa escuridão, esperei. O cheiro frio de mato molhado logo foi interrompido pela gritaria de pássaros variados e então o céu começou a mudar de cor.
Tucanos e muitos outros pássaros voavam pela cidade enquanto eu me esbaldava na padaria Santa Maria. Tudo de excelente qualidade e preços super em conta! Dali voltei à rodoviária.
– Bom dia! Como chego na cidade de Cavalcante?
– Só tem ônibus às quatorze horas. Mas você pode pedir carona ali na BR.
– Carona? Sério?
– U-hum!
Fui para o ponto meio preocupado. Claro que ninguém pararia para mim! Esse era meu primeiro pensamento, afinal, moro no Rio de Janeiro. Carona nas metrópoles, infelizmente, são mais difíceis do que achar dinheiro no chão. Além da questão racial:  
Negro, cabeludo e barbudo. O estereótipo perfeito para ser deixado de lado. Não tinha como não pensar nisso. Será que as pessoas teriam medo de parar para mim?


Então, no início daquele dia perfeito, estendi meu polegar e lá fiquei, até ser surpreendido por um barulho estranho. Nada ao meu redor e o som continuava. Até que olhei para cima e vi um balão. Pela primeira vez vi um balão (Dos que transportam pessoas, é claro) voando.
Após alguns carros que faziam sinais indicando que parariam numa entrada próxima, um caminhão parou.
– Oi moço. Estou indo pra Cavalcante.
– Estou indo pra Teresina. De lá você pega outra carona.
Perfeito. Sabia que para chegar até Cavalcante tinha de passar por Teresina, uma pequena cidade a vinte e três quilômetros do meu foco.
O motorista era o Severino. Natural de João Pessoa (Paraíba), conversamos por todo o tempo sobre tudo um pouco. Enquanto o escutava, pensava: Tenho de ser simpático. Ele pode tirar uma arma do bolso e me matar/roubar/estuprar.Santa Bárbara
Mas o que aconteceu foi uma grande aula sobre a região, com detalhes que somente um morador viajante saberia. Conversar com ele foi incrivelmente divertido. Enquanto avançávamos pela estrada tanto quanto vazia que mais parecia um tapete, devido suas perfeitas condições,
me deparava com gaviões e fazendas que criavam búfalos.
Logo chegamos a Teresina.
– Gerson, eu volto para Brasília hoje. Se quiser votlar comigo, estarei nesta praça às quinze horas.
O agradeci muito, mas disse que dificilmente voltaria com ele. Precisava viver. Ir tão longe para apenas algumas horas não era o que queria.
Já no ponto certo, comecei a pedir carona rumo a Cavalcante. Mas para quêm? Quase não passava carros. Cheguei a perguntar se ali era realmente a estrada certa. Sim, era. Só me restava esperar.
Pedir carona é uma coisa. Agora, esperar por um veículo passar para pedir carona, eu jamais pensei que isso poderia acontecer. Permaneci por uns trinta minutos e não passaram mais do que quatro ou cinco veículos.
Logo um trator se aproximou. Era o caminhão de lixo da cidade. Fiz o sinal de carona e o motorista gritou:
-Isso é caminhão de lixo!! Está pedindo carona?
– Ué, vai que você vai pra Cavalcante depois!! Como vou saber?
Ele, assim como os dois que vinham agarrados no veículo, ficaram rindo da minha cara e logo se afastaram. Se fosse necessário, iria de pé e agarrado à caçamba. Não tenho problemas com isso. Pelo contrário. Mais uma aventura!
Eis que se aproxima uma vovozinha com a bíblia na mão. Meu pensamento era: Ai meu Deus, essa louca vai começar a pregar aqui!!! Não é possível que eu vá ouvir pregação no meio do nada.
Mas tudo que fez foi: Oi rapaz, está pedindo carona?
– Sim.
-Logo logo chegará. – E seguiu seu caminho.
Ufa!! Nada de pregação!
E realmente chegou através de um caminhão reboque dirigido pelo Joaquim, um rapaz muito simpático que me deixou no CAT (Centro de Atendimento ao Turista).
Como moro no Rio de Janeiro, já estava esperando que eles tentassem arrancar meu couro, passar a perna e coisa e tal. Mas não, foram muito honestos e me explicaram as melhores maneiras de aproveitar o passeio gastando menos.
Já que estava sozinho, me aconselharam a esperar por outras pessoas que quisessem fazer o mesmo passeio. Desta forma dividiríamos o valor do guia e caso tivessem carro, não pagaríamos o aluguel de um veículo. Isso caso eles aceitassem, é claro.
Em menos de cinco minutos surgiu a Flávia, uma garota muito simpática. Dividimos o guia (Quarenta reais para cada um) e juntos seguimos em seu carro.
Nosso guia era o Candin (Seu telefone de contato: 62 – 99996117), muito simpático e disposto. Eu não parava de fazer perguntas, rss.
Após andarmos bastante, chegamos no quilombo Kalunga (O maior quilombo do Brasil), que hoje tem o turismo como grande parte de sua renda, o que melhorou a vida de todas aquelas pessoas. Toda vez que você contrata um guia, os está ajudando. E pelas duas cachoeiras deste passeio estarem em suas terras, ninguém entra sem um guia.
Sou o tipo de visitante que quer saber de tudo, então não parava de perguntar, rsss. E uma das perguntas que fiz a Catarina foi: Como souberam que a Princesa Isabel havia abolido a escravidão. Catarina me disse que toda vez que um negro, nos arredores do quilombo, via um branco, se escondia. Então, a fim de avisar os negros, alguns brancos se pintaram com uma fruta que deixava suas peles escuras. Dessa forma conseguiram se aproximar e avisa-los.

Flávia não podia demorar muito, pois tinha de sair do hotel. Não estava muito satisfeita pois teve de deixar sua cadela chow chow no quarto (É proibido levar animais à cachoeira) e o estabelecimento não estava gostando da ideia (mesmo tendo permitido e aceitado, ainda por telefone).
Num determinado ponto, deixamos seu carro (devido ao riacho que cortava a estrada) e pegamos outro, que nos levaria até aos arredores da cachoeira. Cinco reais para ir e mais cinco para voltar.
E como Candin me disse, logo aconteceu. Conheci outras pessoas na cachoeira e continuei o passeio com eles e o guia que haviam contratado. Ele era recifense, ela, baiana. Uma combinação perfeita.
Eu queria entender por quê os recifenses são tão receptivos e gente boa. Todos que conheci até agora foram assim. O casal conquistou meu coração em menos de dez segundos. Dessas pessoas escorre amor.
Me juntei a eles, que estavam juntos com um casal vindo de São Paulo. Assim que começamos a conversar, ele disse: Foi mal por não ter te dado carona. É que não temos este costume. Eles me reconheceram assim que cheguei à cachoeira.
Eram um dos carros que não haviam me dado carona. Mas não tinha por que se desculpar. Afinal, quem não é da região não tem este hábito. Eles eram muito calados, porém não demoraram a se mostrar ótimas pessoas.

A cachoeira de Santa Bárbara é um lugar único que merece ser visitado. É permitida somente duzentas pessoas por dia, para não interferir em seu ecossistema. Você deve chegar cedo pois às quatorze horas o sol não ilumina mais suas águas.

Agora guiados por Catarina, moradorado do quilombo, dona de muitas histórias e uma energia incrível que me fazia ter vontade de abraça-la todo o tempo, fomos os seis rumo à cachoeira da capivara, muito mais cheio de riscos. Deve-se tomar cuidado, como nossa guia nos explicou.
De lá retornamos ao quilombo e almoçamos. Você paga vinte e cinco reais por um buffet caseiro liberado. Dali passamos em mais dois mirantes. Logo escureceria e por isso fomos embora. Como os paulistas passariam por Alto Paraíso, voltei com eles. Rimos bastante disso. Do receio em dar carona para, horas depois, estarmos todos juntos.

Já em Alto Paraíso, pensei em tentar pegar carona à noite e ir para São Jorge, onde fica o parque da Chapada dos Veadeiros. Mas como lá é ainda menor e os preços, maiores, retornei à pousada Menina Lua. Novamente fui muito bem recebido. A pousada é muito aconchegante. O único porém é que a internet oscila um pouquinho no quarto N*1, pois fica muito distante do roteador.
Desta vez acordei mais tarde, pois o parque só abre às oito. Às sete já estava no lado oposto do dia anterior, pedindo carona. Enquanto conversava com uma moça que esperava pelo namorado, um carro parou.
Quem dirigia era o Luciano, que estava levando sua sobrinha e o namorado (ou marido) dela para conhecerem o parque. Eles tinham um astral incrível e durante o trajeto foi me contando sobre alguns lugares, como onde acreditam que existe um portal para outro universo, além dos reptilianos, extraterrestres e outro ponto dito como o único lugar que permanecerá após um desastre.
Não acredito, nem duvido. Por mais absurdo que possa soar. Existem tantas coisas que não conhecemos.
Chegando no parque, me impressionou a eficiência nas explicações sobre a trilha. Primeiro você lê e assina um documento. Em seguida assiste um vídeo que repete quase tudo que estava no papel. Assim a mais idiota das pessoas não correrá o risco de fazer alguma besteira.
Nos despedimos, porém seguimos a mesma trilha em tempos diferente. Andei cinco quilômetros até a cachoeira do Cânion, onde os encontrei. Lá ele me emprestou sua GoPro para que tirasse algumas fotos onde eu não podia levar meu celular (Foi ideia da sobrinha dele).
De lá, mais alguns quilômetros até a cachoeira das Cariocas. Mais um lugar incrível e lindo. Depois, mais cinco quilômetros sozinho rumo ao início da trilha.
Sempre sozinho, em vários momentos tive um pouco de medo. O único barulho ao meu redor era o vento e as minhas pisadas num chão totalmente irregular que em nada ajudava meu avanço. Para todo lugar que olhava, pedras empilhadas em cima de pedras (São pedidos que as pessoas fazem), porém eu só conseguia pensar na Bruxa de Blair. Talvez por isso não toquei em nenhuma delas.
Até que parei, tenso. Risadas e gritos de crianças. Não era coisa da minha cabeça e muito menos som de crianças, mas sim de algumas aves que tinham semelhante som. Credo!! Logo vários pássaros verdes e grandes voaram para longe.
As sensações naquela trilha eram muito estranhas. Parecia estar sendo observSanta Bárbara 2ado, medo, beleza e de estar diante de uma forte energia que pulsava. Era como andar pelo interior de um coração pulsante. Às vezes não sabia se
estava com medo ou maravilhado. Mas não posso negar que fiquei realmente aliviado quando cheguei.
De volta à sede,  fiz a trilha de Seriema. Oitocentos metros para ir e voltar. Um laguinho, ambiente perfeito para crianças. Era o que mais queria naquele meio de tarde. Deitar na água e descansar.
Lá conheci a Clarissa, uma italiana que tem como casa sua mochila. Conversamos bastante e logo nos despedimos.
Não podia ficar tempo demais, afinal, não tinha a menor noção de como voltaria.
Da sede do parque fui andando pela estrada de terra, até conseguir carona com uma moto, que me deixou quase no asfalto pois a polícia poderia aparecer e eu estava sem capacete.
Após chegar no asfalto, andei mais um quilômetro até chegar na entrada principal de São Jorge. Lá voltei a pedir carona.
Me impressionava as pessoas parando e explicando por quê não podiam me dar carona (Iam para outros lugares ou não tinham espaço). Logo um casal surgiu e parou, me deixando a três quarteirões da pousada Menina Lua.
Porém não ficaria mais. Corri para a rodoviária para comprar minha passagem para Brasília. Se conseguisse uma no início da noite, às dez e meia já estaria na casa da minha amiga. Mas chegando no guichê, descobri que o próximo ônibus seria somente meio da madrugada.
Procurei por uma van e logo descobri que elas funcionavam somente pela manhã. Sem opção, retornei e comprei minha passagem. O que podia fazer? Me estressar? De maneira alguma.
Retornei à padaria, coloquei meu celular para recarregar enquanto me acabava nos pães e bolos. Horas depois, o responsável por um restaurante me passou a senha de seu wi fi.
Que lugar era aquele onde as pessoas param pra dar carona e nos deixam usar seu wi-fi?
Muitos ali acreditam no poder dos cristais, naquelas terras e por isso sentem-se protegidos. É muito interessante o pensamento de muitos com quem conversei.

Já que ia virar a noite perambulando pela cidade, precisava encontrar algo para fazer. Me falaram do ritual da Fogueira da Lua Nova, que acontecia numa casa. Sem pensar duas vezes, lá fui eu. Assim que cheguei, fui muito bem recebido.
Era a 61* fogueira da Lua Nova. A celebração é uma noite regada a música ao vivo, onde as pessoas podem tocar o que quiser, declamar poesias e dançar ao redor do fogo.
A Lua Nova carrega uma série de energias e simbolismos, resultando nessa celebração. A fogueira é o lugar onde você atira tudo que não gosta que existe em você, que gostaria de mudar e também pedir o que você quiser. Muitos a fitavam por minutos. Estendiam os braços em sua direção e rezavam silenciosamente.
Achei aquilo tudo muito lindo. Diante de um céu estrelado e uma fogueira que logo se tornou bem grande, as pessoas cantavam e tocavam músicas lindas em línguas variadas, enquanto o anfitrião oferecia água. Bebidas alcóolicas pareciam não ser permitidas.
Ali fiz amizade com um peruano que devia ter uns cinquenta e tantos anos. Ele era adepto de comunidades alternativas e já havia passado por algumas. Conversamos bastante até o momento em que me assustou.
Ao falar sobre o Parque da Chapada dos Veadeiros, ele disse: A energia daquele lugar é muito intensa. É como estar dentro de um coração pulsante.
Eu fiquei parado, sem saber o que dizer. Ele usou minhas palavras. Tais palavras me fizeram pensar em muitas coisas. Logo ele tirou de sua bolsa três diferentes flautas e passou a toca-las com maestria.
No meio da madrugada, me levantei e saí. Tive vergonha de me despedir. Não sabia se deveria me despedir. Com minha mochila nas costas, saí andando pela cidade deserta.

Após andar bastante, sempre observando aquele céu perfeito, retornei à rodoviária e lá permaneci até meu ônibus chegar.
Assim que cheguei em Brasília, pensei em tirar um breve cochilo e visitar meu tio, mas acabei dormindo até o dia seguinte.

Brasília é uma cidade curiosa. Quase não se vê pessoas andando pela rua e à noite é o cenário perfeito para um filme de terror. Tudo é muito escuro e distante, como se estivéssemos num gigantesco campo universitário federal.
E apesar de toda a sua arquitetura, impossível comparar com a beleza dos lugares por onde percorri em Goiás.

Não adianta ver fotos e vídeos, tem que se programar e ir.
Tudo é muito lindo e diferente. Porém, nada teria sido tão legal se os goianos não fossem pessoas incríveis. Todos com quem conversei me receberam muito bem, indo muito além de um papo trivial.

DICAS PARA SUA VIAGEM:

– Não há transporte entre os lugares. Alugue um carro. Viajar de carona é maravilhoso, porém existem questões bastante relevantes:
* Só funciona se estiver sozinho. Tendo companhia, as chances de carona diminuem drasticamente.
* Você fica limitado a horários, afinal, você é levado. E atenção quanto à hora: Deixar para pedir carona no final de tarde é arriscado. Se não conseguir, terá de passar a noite no local. E dependendo de onde for, não é uma boa. E muito menos seguro.
* À primeira vista parece existir um descaso com o transporte público em relação ao turismo. Meu ponto de vista é que eles mantêm dessa forma para não popularizar demais e, consequentemente, desgastar a região.

Como permanecer à noite numa estrada onde a região é repleta de onças? Pode soar meio absurdo, mas não é. Estes animais têm hábitos noturnos e andam bastante pela noite. Por quê acha que o parque da Chapada dos Veadeiros fecha às dezoito horas?
– Quando eles dizem que você precisa de um guia, é por quê você realmente precisa. Além de assim contribuir para a existência e qualidade de vida dos moradores do quilombo, que tiram do turismo uma renda considerável. Lá percebi o quão necessários são. Até mesmo para enriquecer os trajetos com informações e histórias. Além de serem incríveis!
Procure pela Catarina ou o Candin (62) 9999-6117.
– Os goianos usam as palavras em seu real peso. Não existe isso de “vá com cuidado que consegue”. Quando dizem que determinado lugar/ação é perigoso, ACREDITE! Eles não exageram, para o bem ou para o mal.
– NÃO VÁ USANDO CHINELOS! Não é confortável e muito menos seguro. Nada melhor do que tirar os tênis toda vez que chegar numa cachoeira e calça-los novamente antes de continuar. Eu, que adoro usar chinelos, não encontrei um
único ponto positivo para usa-los nesta viagem. E ATENÇÃO: Sempre que for calçar seus tênis, o sacuda. Insetos podem adentrar enquanto você está dentro da água e isso pode ser mortal. Mantenha este hábito.
– Leve óculos de mergulho. Acredite, toda vez que mergulhar com eles, será inesquecível. Especialmente na cachoeira de Santa Bárbara.
– Protetor solar e repelente contra insetos todo o tempo. Indispensáveis.
– As pessoas carregam seu próprio lixo todo o tempo. Não encontrei nenhum resquício pelos lugares onde passei. Até mesmo cascas de frutas e outros restos naturais não são jogados. Existe um cuidado extremo quanto a manter tudo como realmente é. Então não interfira.
Aproveite e crie este hábito para todos os lugares que visitar (Caso ainda não tenha).
– As pessoas da região são simples, objetivas e não rudes. Então não confunda as coisas. Aquela região é a casa deles, então adeque-se às regras do local (como horários de ônibus e demais possibilidades. Não seja grosseiro(a) por que aquela realidade pode, muitas vezes, não realizar seus desejos e vontades.
– Quase tudo é pago em dinheiro (inclusive muitas pousadas). Então leve uma quantia considerável em dinheiro para não passar aperto. Só usei cartão no supermercado de Alto Paraíso. Bancos e caixas 24 horas muitas vezes são difíceis de encontrar. Uma dica é dividir essa grande quantia por lugares diferentes de sua mochila e roupas. Dessa forma você se sentirá mais tranquilo(a).
– Muitas trilhas têm trechos bastante fechados e as chances de se arranhar são enormes, aliado ao sol forte e ar seco. Parece lindo você ir de short e camiseta, porém não é a melhor opção. Roupas leves que cubram braços e pernas são sempre a melhor opção.
– Devido ao cuidado com a região, existe limite de pessoas em determinados lugares. Então acorde cedo para não perder a chance.
– A região se torna ainda mais incrível devido ao goiano e muitos que lá decidiram morar. São pessoas incríveis, receptivas, diretas e têm um amor enorme por aquelas terras, o que faz toda a diferença no dia a dia. Faça amizade com as pessoas que lá moram. Vale muito a pena conversar com eles, mesmo que não mantenham contato futuramente. Todas as pessoas com quem me deparei nestes dias eram incríveis e ótimas de papo.

– TALVEZ O MAIS IMPORTANTE DENTRE TODAS AS DICAS: Você não conseguirá curtir o passeio, as trilhas e tudo mais se não tiver em boa forma física. Então, comece a se exercitar um mês antes. Apesar de todas as belezas naturais, lembre-se: Você estará debaixo de um sol escaldante, ar seco, andando por trilhas de chão totalmente irregular e carregando no mínimo cinco quilos nas costas, pois tem que levar lanches e no mínimo uma garrafa de dois litros por pessoa.
Caso não tenha um bom condicionamento físico, acordará cheio de dores e as chances de diminuir a quantidade de trilhas será enorme. E acho, ACHO, que não existe passeio pela chapada que não exija certo condicionamento.
Como tenho uma rotina intensa de exercícios, fiz tudo isso e nada senti no dia seguinte.

Viajar é uma das melhores coisas do mundo. Faça sempre que puder. Saia da sua zona de conforto. Enfrente o medo pelo desconhecido e siga em frente. Viajar enriquece a alma.
Quando o escritor para de escrever ele também viaja, literalmente.

Ao som de All Saints – Tribal

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