Amor Geral – O Novo Disco da Fernanda Abreu. (Faixa por Faixa)

fernandaabreucapaamorgeral01 – Outro Sim (Fernanda Abreu/ Jovi Joviniano / Gabriel Moura) – Primeiro single do disco e também a música que abre o cd, Outro Sim já mostra o que nos aguarda ao longo do álbum. Sua letra é reflexiva e leve, aliada a um arranjo muito bem construído. Impossível alguém que ame música pop não se apaixonar por ela. E o mais legal é que em meio a tantas músicas atuais com suas letras óbvias, a canção de Fernanda dá um nó na nossa cabeça. É preciso escuta-la mais de uma vez para entender suas sacações, caso acostumado/acomodado às muitas produções atuais onde se fala do óbvio de maneira… óbvia. Uma música irretocável. Amor Geral é iniciado da melhor forma possível. Uma música impactante logo na faixa de abertura pode ser um risco. – Nota 10

Você confere o clip (Muito bonito por sinal) aqui:

02 – Tambor (feat Afrika Bambaataa) ((Fernanda Abreu/ Jovi Joviniano / Gabriel Moura) – Produzida por Sergio Santos) – Nos dias de hoje, construir um funk parece ser a coisa mais simples do mundo, de acordo com a enxurrada de canções deste estilo que nos acertam todos os dias. Porém Fernanda brinca e reinventa o óbvio. A construção de Tambor através de agogôs, berimbaus e outros elementos musicais percussivos, aliados aos jogos vocais entre Fernanda e Afrika Bambaataa (com breves momentos que lembram aquela inconsequente Fernanda do SLA RADICAL DANCE DISCO CLUB), tudo guiado por uma letra cheia de referências além terras cariocas, esta que engoliu o mundo com sua maneira de fazer funk. Outro grande ponto é o fato de Fernanda poder fazer um dueto com alguém da nova geração, mas não. Ela é elegante demais para ter um featuring qualquer.  Música certa para estourar no verão carioca. – 10

03 – Deliciosamente – (Fernanda Abreu/Alexandre Vaz/ Jorge Ailton. Produzida por Liminha) – Para quem sentia falta daquela boa música que dá para cantar enquanto dança. Um house bem leve, solar e provida de letra inteligente. É a terceira faixa e Fernanda surpreende. Para quem conhece o trabalho da garota sangue bom, nota-se que ela está diferente.  – 10

04 – Saber Chegar (Fernanda Abreu / Donatinho/Tibless/Play. Produzida por Liminha) – A primeira música cool do cd. Letra e música se encaixam de forma natural a canção soa como um bom momento após algo ruim. Fernanda arrisca em tons mais agudos e se sai bem. Uma música muito bonita- 10  (OBS: Ouvir essa música enquanto pedalar pela orla pode resultar em acidentes sérios. Eu quase bati duas vezes13405226_10206228016286044_1669914088_o de tanto viajar na vibe da música).

05 – Antídoto (Fernanda Abreu – Produzida por Rodrigo Campello) – Apesar da delicadeza, essa música é um chute nas partes baixas. O contraponto entre verdades e a delicadeza é maravilhoso. É a quinta faixa do cd e não há uma oscilação sequer, seja no que for. Uma canção nem um pouco óbvia. Quando Fernanda escolheu Outro Sim para ser a faixa de abertura ela não estava brincando. Os tempos são outros e ela também. Fernanda derrama em cada canção cada uma das mortes e renascimentos, alegrias e tristezas pelas quais passou nos últimos anos. – 10.

06 – O Que Ficou (Fernanda Abreu / Thiago Silva / Qinho. Produzida por T.R.U.E)  – Para mim essa música é o fim de uma história que se iniciou em Você Pra Mim. O Que Ficou é tão confessional que não há dúvidas, é sobre o término de seu relacionamento que lhe deu duas filhas. O instrumental nem um pouco óbvio, aliado à sua voz embargada e uma letra que mais parece uma dolorosa carta de despedida com ponto final certo transformam a canção numa coisa uníssona. Um precisa do outro. Não há elemento superior ao outro. E quanto ao final da canção, bem,escute e tire suas conclusões. – 10

Escute aqui:

07 – Double Love Amor em Dose Dupla (Double Love Amor em Dose Dupla (Fausto Fawcett/Laufer. Produzida por Sergio Santos) – Após uma imersão em seus sentimentos raramente revelados, relacionamentos e afins, aqui Fernanda nos joga no centro de um inferninho existente em qualquer lugar do Brasil. A música, a única de Amor Geral que não é assinada por ela, foi feita por Fausto Fawcett e Laufer, eternos parceiros da cantora nas mais diversas músicas de sua carreira. Sempre que se unem o resultado é uma incrível maluquice e agora não poderia ser diferente, deliciosamente cheia de sacadas perversas e outras luxúrias sexuais. Uma vez ela declarou numa entrevista que era uma jovem senhora. Pois isso foi por água abaixo nesta música. Fernanda expõe sua vida em Amor Geral como nunca fez em seus trabalho anteriores, talvez por isso eu não consigo desassociar sua imagem do sexo que escorre dessa canção. Se nas músicas anteriores percorremos seus pensamentos e coração, em Double Love foi a vez de mergulhar em sua energia sexual. Sorte da pessoa com quem ela estiver. – 10.

08 – Por Quem (Por Quem (Fernanda Abreu / Qinho) – Produzida por Tuto Ferraz) – Diferente das anteriores, Por Quem começa morna e geralem seu decorrer vai crescendo, passando por diversos contrapontos, indo também na direção contrária dos dizeres da letra (Algo bastante comum nas canções do Pet Shop Boys). É aquele tipo de música onde as estrofes são mais fortes do que o refrão, este o menos impactante do álbum. – 9.

09 – Valsa do Desejo (Fernanda Abreu / Tuto Ferraz. Produzida por Tuto Ferraz) – Uma música jamais esperada no repertório de Fernanda. Se em Double Love o tesão e o desejo são escancarados, aqui seguem noutro caminho, porém não menos intensos. Sua construção é extremamente difícil devido aos contrapontos entre melodia, letra e o seu significado. Dar o tom certo a uma canção como esta é para poucos.  Caso fosse cantada por alguma dessas cantoras funk/pop da atualidade, teria se transformado em algo óbvio e perderia o encanto. Um ponto alto não só no disco como em sua carreira. E novamente não consigo desassociar a imagem da cantora de seus dizeres. Se ela a escreveu apaixonada, quem recebeu esse amor deve agradecer todos os dias. Chegamos à penúltima faixa do álbum. – 10.

20160606_00284610 – Amor Geral (Fernanda Abreu / Fausto Fawcett/ Pedro Bernardes. Produzida por Sergio Santos) – Fernanda Abreu é louca e isso é maravilhoso. Essa música na verdade é uma grande vinheta que sintetiza a ideia geral do álbum nos é apresentada após percorrermos todas as canções. Para os mais ingênuos essa seria a faixa de abertura. Mas aqui não. O cd ser finalizado com ela faz todo o sentido. Fernanda não quer seus ouvintes presos às suas regras. Elas nos quer viajando com nossos próprios sentimentos e reflexões para em seguida dar a cartada final. É como se dissesse: Vejam o que eu vivi, mas antes, olhem para o que vocês viveram. E assim chegamos ao fim de Amor Geral. – 10

Você confere esta faixa num vídeo exclusivo feito pelo fã-clube da cantora:

Após doze anos, desde o lançamento do disco Na Paz (Um álbum incrível, porém ignorado em seu MTV Ao Vivo), Fernanda retorna com um trabalho impecável.

Não é um cd de fácil assimilação para aqueles que se deixaram ser tomados pela preguiça mental iniciada devido ao turbilhão de ideias fracas e pré fabricadas que nos rodeiam através das mais diferentes mídias. Fernanda sabe entreter sem ser boba.  Nada de rimas rasas e já conhecidas, suas letras seguem uma construção que funciona sem restar dúvidas, levantando questões atuais e importantes e mostrando que entretenimento e questionamentos podem andar de mãos dadas. Outro ponto bastante positivo é a ausência de possíveis participações a fim de se inserir com maior facilidade na nova geração, além do NENHUM uso de certas palavras e termos bastante utilizados. Nada de lacrar, destruir as inimigas e coisas parecidas. Ainda bem! Particularmente é um linguajar que abomino. Ela sabe ser elegante sem ser opaca, se colocar desejada e cheia de desejos sem ser óbvia. Através da sutileza suas ideias mais obscenas permanecem onde devem estar e se mostram ainda mais viciantes.

O mesmo vale para os arranjos. Nada óbvio ou se apoiando no pré fabricado de venda fácil e igualmente esquecível. A presença do grave (elemento básico do funk carioca) em todas as canções, das formas mais variadas, é um grande charme do álbum, que merece ser escutado com um ótimo equipamento de som e também com fones de ouvido de igual porte.  Fernanda também está vocalmente diferente, arriscando mais agudos, algo que estava cada vez mais raro.

Fernanda não olha para seu umbigo neste trabalho. Seria muito fácil. Ao invés disso, ela foca em seu coração, nos convidando para o balanço que faz de sua vida. Amor Geral é muito bem construído, inteligente, divertido, sedutor e o primeiro de sua carreira todo construído na primeira pessoa. Sempre vi Fernanda como uma cantora urbana, alguém que canta sobre tudo que existe nas pessoas e no lugar onde vive e consequentemente apresentando um pouco sobre si. Agora não, temos sua vida, seu coração e desejos como protagonistas.

O álbum é o contraponto de SLA RADICAL DANCE DISCO CLUB, seu disco de estreia (Que usou e abusou de samplers, criando uma fusão musical inesperada que deu certo. Semelhante ao que Marcelo D2 fez  treze anos depois com o À Procura da Batida Perfeita, no caso dele misturando hip hop com samba). A garota carioca zona sul transloucada e disponível para conhecer e viver as realidades cariocas assim fez. Subiu o morro, rodou o Brasil, mergulhou em experiências sonoras, enlouqueceu, casou, separou, se tornou mãe, cresceu e descobriu que o melhor momento é o atual, que lembranças não são um fardo e que no final das contas tudo só valeu por que estava mergulhada em amor. Sem sombras de dúvida o disco mais confessional de sua carreira. E que não demore outros dez anos para abrilhantar o cenário pop brasileiro. Amor Geral é deliciosamente imperdível.

Obs: Uma grande parte das “novinhas” do funk pop devem estar escutando este disco e morrendo de vergonha. Pois é…

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