Um Domingo Tipicamente Familiar

O telefone toca.

 – Alô.

– Oi amigo.

– Oi Loirildes* (Obviamente ninguém se chama Loirildes… será? Deixa pra lá… rsss)

– E aí!

– Então, domingo irei dançar numa casa de swing, você não quer ir comigo? Eu danço e depois vamos embora.

– Casa de swing? Pôxa, eu adoraria, mas estou atrasado no meu cronograma. Putz!

O dia era quarta. Realmente queria ir, afinal, assistir uma amiga dançar funk numa casa de swing não acontece com frequência. Mas não podia parar meu trabalho, a um passo de estar atrasado.
Domingo de manhã. A casa habitada pela paz  até que o interfone toca.

– Hã? Ah tá! Pode subir. Um amigo.  Ai que saco, meus planos de escrever o domingo inteiro começavam a ir por água abaixo.

Abri a porta e lá estava ele, numa pose estilo lady gaga decadente, segurando uma coca-cola 2 litros e com energia de quem está indo à micareta dos sonhos.

– Oi amigo!!!! Vim passar o dia com vocês!!!!!!!!!!!!!!!!!

– Nossa. Que legal… (Juro que tentei demonstrar a mesma animação.)

– Estava num trabalho aqui do lado, então resolvi vir aqui!

– Maneiro.

Enquanto conversávamos, outro amigo, este com quem moro e que ardia em febre (Eu estava quase curado da gripe), abriu a porta do quarto, todo arrumado.

– Onde você vai?

– Irei com Loirildes na casa de swing.

– Como assim? – Perguntou Garoto Elétrico*.

– Ela vai dançar funk numa casa de swing e pediu para que fosse com ela.

– Gente, eu não posso perder isso. Será que eu vou? Você vai, Gerson?

– Estou louco pra ir, mas não posso. Ai que droga! Por quê você não vai com Febril*? Daqui a pouco não poderei te dar atenção. Preciso retomar o trabalho!

– VAMOS!!!!

– Ahh meu Deus, meu cronogrma vai explodir. Espera, vou ligar pra ela:

– Aqui, sou eu! Nós três podemos entrar numa boa lá? Sim, três por quê garoto elétrico também vai! Não tem problema mesmo três homens te acompanharem?

– Naaaaaaaaaaaaaaaaaaãooooo amigo. É tranquiiiiiiiiiiiiiilo. (A letra se repete por que sua voz vai ficando cada vez mais aguda.)

– ok. Beijo. Tá certo. Beijo.

– Ai merda. Foda-se! Eu vou com vocês, não posso perder essa!

– Cara, isso será muito engraçado!

– Preciso me arrumar. Coisa rápida. Ela falou que podemos ir com calma. Daqui uma hora, na Central.

– Já é.

Prontos, saímos. Três homens enormes: Um ardendo em febre, outro achando que a vida é uma micareta e outro super preocupado com que tem que fazer e ao mesmo tempo louco pra ver qual era daquela maluquice, juntos rumo a uma casa de swing em Madureira (Estávamos na Zona Sul) para ver uma amiga dançar funk.
Pegamos um ônibus porco (na boa, parecia ter saído do lixo. Não me lembro da última vez que andei num veículo tão podre de sujo. Quem olhou pra mim não deve ter entendido nada, pois fui até a Central mantendo a coluna reta e tentando não encostar em nada. Nunca em minha vida desejei tanto flutuar)

– Gerson, que cara é essa?

– Tudo bem que o ônibus vai pra Central, mas não precisava estar caracterizado. Imundice do caralho!

– Aaahahhaahha!

(Próximo a nós, uma mulher que mais parecia um Gremlin, dormia de boca aberta. Tentei tirar uma foto com o celular de Febril, mas ela acordou).

Chegando na Central (lugar super agradável) nos encontramos.

– Qual ônibus pegaremos?

– Que ônibus o quê, vamos de trem!

– Ah tá. – Sorriso amarelo.

Adentramos na estação. Enquanto eles foram à farmácia, parti rumo a um caixa 24 horas. Precisava sacar 10 reais, mas tudo que consegui foi saber que minha senha silábica havia mudado e como não sabia a nova fiquei sem dinheiro para qualquer eventualidade, além de um  pastel. Legal, né?(Nunca pedi nem autorizei mudar essa porcaria de senha silábica. Caixa econômica federal, você vive me causando dores de cabeça com essas mudanças súbitas de senhas silábicas. #senhassilábicasvãotomarnocu).

Passamos a roleta e procuramos por assentos disponíveis, pois ninguém merece ir em pé da Central à Madureira. Encontramos lá na frente, num dos primeiros vagões. Era a primeira viagem de trem do Garoto Elétrico, por isso parecia estar na Disney. Tudo era uma alegria contagiante, digno de uma aventura inesquecível e eu vendo a hora em que teríamos que salvá-lo de uma possível porrada. Porém a viagem seguiu tranquila. Ninguém tentou matá-lo ou coisa do gênero devido sua animação que podia ser ouvida/vista de qualquer ponto daquel vagão. Quase não descemos na estação correta por que ninguém prestava atenção em nada que não fosse a conversa que estava super bombando.

– Gente, é aqui! Corre!

Chegamos em Madureira.

Enquanto andávamos pedíamos informações a algumas dezenas de pessoas, até finalmente encontrarmos o caminho certo.

Telefone toca.

– Oi. Estou em Madureira, vim assistir uma amiga dançar.

– É festa?

– Não. Apresentação de dança.

– Balé?

– Errrr… sim.

– Legal. Boa festa aí.

– Caralho! Não é festa, porra!

Continuamos num caminho super agradável, daquele tipo que você nunca se esquece. De um lado, um muro que nos separava dos trilhos do trem. Do outro, um monte de casas e oficinas como nos filmes de zumbis. Local excelente para ser estuprado ou morto. Até que, de onde estávamos, avistamos uma placa…. Motel Alegria*. O prédio era enorme. Adentramos.

Impossível três homens enormes acompanhando a mesma mulher num motel não atrair olhares.

Ela se apresentou numa das recepções (Eram duas. Uma de frente para a outra). Em seguida disse para esperarmos um pouco pois ela subiria para se arrumar. Ok. Enquanto isso eu lia a Veja Rio da semana e tentava não rir da situação. Febril acomodou-se no sofá e pôs-se a derreter. Garoto Elétrico observava tudo em silêncio. Enquanto folheava a revista, não pude deixar de observar quem entrava e saía. Motel é um negócio engraçado. O povo chega com aquela cara de nada (Igual a muita coisa na dança contemporânea) como se assim ninguém os visse, ou pensasse na obviedade do por quê ali estarem. Eu os observava e vice-versa. Afinal, três homens sentados na recepção de um motel/casa de swing chama a atenção. Nesse momento entendi o por quê das duas recepções. Uma para o motel e outra para o swing.

Mais de uma hora depois, o produtor da festa, gordo como o Jabba do filme Guerra nas Estrelas, diz a Loirildes que não podemos subir pois trata-se de uma casa de swing. Se fôssemos mulheres, até poderia liberar, mas homem, não. Ao ouvir aquilo meu estômago começou a se retorcer. Caraca! Sair de uma ponta da cidade à outra pra ficar esperando na recepção de um motel/casa de swing e descobrir que tudo foi à toa é fim de carreira!

– Mas eles só vieram assistir o show. Não ficaremos depois.

– Tudo bem então. Quando for começar os busco aqui. Mas antes, vamos lá conhecer onde será. Venham conosco conhecer a casa!

Juntos, adentramos no elevador. Mal a porta se fecha e a seguinte mensagem ecoa: – Motel alegria, onde amar é uma delícia.

Mordi a língua e foquei no chão, até que, não aguentando mais, olhei para todos e deixei escapar uma risada tímida. Todos fizeram o mesmo. A vontade de gargalhar consumia meu interior. Após sermos apresentados ao local, conhecendo todos os quartos e suas finalidades, retornamos à portaria, onde alternava minha atenção entre o filme dublado que passava na TV e as pessoas que entravam e saíam. Dentre todos os casais que saíram, somente três carregavam um sorrisão. Gozaram três vezes cada um.

Mas de repente tudo ficou escuro. As imagens rodavam. Os pulmões a um ponto de explodir. Que casal era aquele? Imagine um homem na faixa dos cinquenta anos que acabou de ser atropelado por uma kombi e que após o acidente chamou a primeira mendiga louca para acompanhá-lo num motel, no melhor estilo Linda, do desenho Mr. Pickles. Metade do cabelo dela apontava para uma diagonal enquanto a outra metade procurava desesperadamente por uma direção. Definitivamente muito pior do que o meu ao acordar. Respirei fundo e após o elevador os levar, ri educadamente. Logo em seguida, duas mulheres com mais de quarenta anos surgiram carregando copos de cerveja. Uma agia normalmente, enquanto a outra falava quase gritando. Sabe aquela pessoa que quer se mostrar UHUUU, SOU MUITO LOUCA E OUSADA!! NINGUÉM ME SEGURA POR QUE EU SOU EU!! Acho que não preciso dizer mais nada né… A todo momento entravam e saíam e desta vez, após esperarem um pouco, finalmente chegam seus acompanhantes. Ué, elas foram numa casa se swing com os filhos? Aqueles rapazes não tinham mais do que vinte e seis anos.  Elas, super animadas. Eles, nem tanto. Rumo ao elevador, eis que ecoa o seguinte comentário:

– E aí, gostou da minha bolsetinha? – Perguntou a “ousada” enquanto mostrava um troço parecido com uma pochete. (Putz!!!!)

Quase uma hora depois, chegou o momento do show. O funk já rolava solto. Num canto, impossível não perceber a filha de Free Willy usando um cara como balão pula-pula. Aquilo não era um requebrar de quadris erótico e sim uma tentativa assassinato. As pessoas nos olhavam. Três homens desacompanhados e rindo sem parar não devia ser algo comum numa casa de swing num domingo à noite. Ao olhar para o lado, um banner com a foto de Loirildes acompanhado dos dizeres: MC Fulano e sua coleguinha Loirildes.  O nível da parada era altamente bizarro.

Então o show começa. O MC sei lá quem começou a “cantar” (Cantava mal pacas! Sabe aquele cara que ainda acha que é gostoso, quando na verdade, não é? Pois então…). Na terceira música Loirildes subiu no palco. Para animar ainda mais a galera, chamaram também uma garota no palco que nos proporcionou uma linda cena. Mãos no chão e jogando a bunda pro alto. Seria demais se ela não fosse super ultra flácida!! Sua bunda não só batia palmas como reverberava e quase dava um nó em si mesmo, como tentáculos de um polvo.
Após dançar bastante, Loirildes transformou-se na tequileira, colocando tequila na boca das pessoas e sacudindo suas cabeças enquanto educadamente fugia das mulheres que tentavam alisá-la.

Em meio ao show, um cara sem camisa e acompanhado por uma mulher encontrava-se furioso. Pelo pouco que ouvi, um cara solteiro entrou no quarto deles.. (Não foi nenhum de nós). Ao término do show, retornamos à portaria. E eu ainda acreditando que ganharíamos algo para comer. Não me pergunte de onde tirei essa ideia…

– Boa noite. Estão aguardando alguém? – Perguntou a moça da portaria que sabia muito bem com quem estávamos.

– Esperando nossa amiga que acabou de dançar.

– Tudo bem.

Ela chegou e o funkeiro também. Com uma má vontade e sem a menor vontade de disfarça-la, nos deu carona até um ponto decente, após nós pedirmos para para o carro a todo momento para pedir informações. Acho que ele se irritou, rs.

Já no ônibus, Garoto Elétrico foi bulinado à distância por um cara boa-pinta e em seguida o ônibus largou o asfalto pra seguir nos trilhos de uma montanha-russa. Só assim para explicar tanto solavanco e gritaria enquanto éramos jogados de um lado para o outro. Eram quase uma hora da manhã quando chegamos em casa.

Nada como um domingo familiar para dar início a mais uma semana.

Ao som de Seal – Crazy

*Nomes fictícios.

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