A Galinha

Saindo de casa, rumo ao lançamento do livro de uma amiga em Ipanema, algo chamou minha atenção. Dentro do cesto de lixo da Comlurb, (impossível de não ser visto devido seu tom laranja), uma bola branca e viva. Uma galinha viva!! Primeiramente tirei uma foto para depois ver se ela estava machucada. Nenhuma mancha em suas penas brancas. Estaria doente? Às minhas costas, enquanto terminava de tirar a foto, o porteiro do prédio (que não é o meu), gargalhava. Perplexo com a situação, fui falar com ele:a-galinha

– Foi você quem a jogou no lixo?
– Sim. – Respondeu meio constrangido, mas ainda aos risos.
– Ela está doente?
– Não. Não tenho onde coloca-la.

Eis que somos interrompidos com a chegada de uma bela senhora, perfeitamente arrumada.

– Você também está tirando foto da galinha? “Fulano” também tirou.
– Pois é, achei surreal encontrar uma galinha no lixo.
– Infelizmente, vira e mexe aparece uma galinha na rua. Sabe-se lá quem as solta. E a gente não tem o que fazer com elas. Eu já pensei em
leva-la para minha casa. Mas como? Não tem espaço, além do mais tenho dois cães. Não seria uma boa ideia. Eles a estraçalhariam.
– Pois é. Aqui perto tem o Morro Azul e lá tem quem cria galinhas. Mas não tenho como ir lá agora.  Não sei se você já viu, mas vira e mexe tem uma galinha andando por ali. Se pudesse entrega-la a quem pudesse mata-la para comer, seria uma boa. Eu nunca matei, mas na teoria sei como é por que já vi milhares de vezes. Mas não tenho a faca certa e com certeza terminaria em confusão, rssss.
– Também não tenho como mata-la aqui. E você viu que ela está em perfeito estado. Não é galinha de macumba.

Nos despedimos e, já no ponto de ônibus, a galinha não saía da minha cabeça. Como é possível uma galinha surgir no centro de uma metrópole? Sempre pensamos em cães e gatos que poderiam ser adotados. Mas uma galinha? Como leva-la para dentro de um apartamento, fosse como animal de estimação ou prato principal de domingo? Será que ela seria capaz de aprender a fazer suas necessidades num jornal no banheiro? Acho que não. E não quero chegar em casa e encontrar a casa toda suja de bosta de galinha. Mas mais bizarro do que uma galinha surgir no meio de um bairro de concreto é encontra-la dentro do lixo simplesmente por não se encaixar em nenhuma fácil possibilidades. Não há espaço para um animal que não pode ser adestrado (Eu ACHO), ninguém sabe mata-la para cozinha-la e ao mesmo tempo todos sentem por ela. Não é bizarro como a vida cabe dentro do lixo a partir do momento em que não se encaixa no contexto?
Muitos adorariam come-la, mas ninguém sabe como mata-la e prepara-la, literalmente, do início. Se ela fosse oferecida limpa e morta, uma fila se formaria em segundos.

O que aconteceu com ela eu não sei. Não quis retornar. Eu me conheço. Acabaria a trazendo para casa. Nem que fosse por uma noite. Por que subir um morro no meio da noite com uma galinha branca debaixo do braço à procura de alguém que a queira é demais até pra mim, que normalmente costumo alimentar as maluquices que surgem em meu caminho.

Ver uma galinha viva dentro do lixo não é legal…

Os anos passam e nunca mais encontrei uma galinha no lixo. Ainda bem.

Ao som de Per Gessle – Perfect Excuse

(Visited 86 times, 1 visits today)
Please follow and like us:

Você pode gostar...

Comentários no Facebook