Pessoa Louca Te Esperando

Reunir os amigos é sempre uma alegria. Mas às vezes o tiro sai pela culatra. Quando nos reunimos na praia ou outro lugar público, as chances de uma pessoa conhecida louca aparecer e querer se juntar ao grupo é enorme, especialmente quando na praia. Estou sozinho, posso ficar com vocês? Às vezes a pessoa quer deixar suas coisas com um conhecido e nadar um pouco. Mas não foi o que aconteceu desta vez.

Neste caso a pessoa é uma daquelas super legais nos primeiros trinta minutos e depois se torna insuportável, além de louca. Pois além de acreditar ter mais informações do que o Google, também é modelo, cantor, apresentador, cabeleireiro, engenheiro, bailarino, médico, drag queen, hostess de boate e animador de festas infantis nos feriados… tudo aliado a um visual no melhor estilo Latin Lover do interior, com cabelos até a altura dos ombros e um corte que se assemelha à uma das capas dos primeiros cds da Mariah Carey.

Papo vai, papo vem. Todos desesperados para que ele vá embora quando o mesmo, num determinado momento, solta a seguinte pérola:

– Eu tenho silicone no peitoral e na bunda.

Pausa mortal no assunto. Todos olham para o nada. O menor contato visual desencadearia numa explosiva gargalhada. Em meio ao silêncio ele pega a mão da única mulher do grupo e a pressiona contra o peito. – Viu só? Aqui você consegue sentir a prótese. E logo vai passando por todos para que todos sintam a mesma.

Todos respiram fundo silenciosamente. A realidade está tão louca que ninguém quer se afastar. Todos estão curiosos, querendo ver onde isso vai chegar. Da praia fomos à uma lanchonete. Enquanto esperávamos pela comida e já esquecido do silicone, ele levanta outra questão. A AIDS é culpa do governo e este a usa para controlar o povo. E como da primeira vez, antes que alguém se manifestasse, ele, muito rapidamente, emendou o assunto dizendo que transaria com qualquer ser humano, pois ninguém resiste ao Fred, enquanto começava a se apalpar.

Por quê aquela pessoa louca está falando isso? Um cara na casa dos trinta que dizia orgulhosamente para um grupo com que não tinha intimidade que chamava seu pinto de Fred.

Quando conseguimos sair desse lugar bizarro, em algum momento eu disse que era escritor.

– Ahh, então você é do tipo que viaja na maionese!

Mas ele não se deu por vencido e começou a despejar uma série de pensamentos tentando se mostrar culto (De onde muitas pessoas tiram que quem escreve fala coisas densas por todo o tempo e nunca está disposto a uma conversa simples? Isso acontece com bastante frequência).

Naquele momento ninguém estava aguentando mais e ele, sozinho, desenvolvia todo um assunto acerca da produção de uma cena de perseguição de carros no filme Os Normais. Todos exibiram um sorriso amarelo, demonstrando nenhum interesse. A situação já tinha perdido a graça há muito tempo e já tínhamos desistido quando chegou a intervenção divina. O céu rapidamente ficou cinza e ele, comedo da chuva que cairia, foi embora. Nós também.

No trajeto entre a lanchonete e o ponto de ônibus, uma ida rápida ao banco e a Sue, uma sueca que conhecemos naquele instante. Terminamos o dia correndo enlouquecidamente pela chuva, rumo à casa.

Às vezes o trivial, como encontrar amigos, pode se transformar numa maluquice que você jamais acreditaria se não tivesse presenciado.

Robbie Williams – Beyond The Sea

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