Os Patins e a Vida

Passado pouco mais de vinte anos, peguei neste  domingo os patins que meu amigo deixou aqui em casa e fui reaprender a andar neles. Óculos escuros, protetor solar, boné e a boa trilha sonora que eu queria para o momento (Várias músicas da Melanie C). Não chamei ninguém por que queria ir sozinho. E lá fui eu.

A vontade era de ser como nos filmes (algo que sempre falo e acredito, rss). Os colocaria e ao som daquela música deslizaria feliz debaixo do sol forte. Então tudo aconteceu, menos o deslizar. Tive de me acostumar com o peso, o equilibrar e o reposicionamento do corpo, enquanto torcia atentamente para não quebrar um dente, a cabeça ou qualquer outra coisa. Articulações tensas. Pouco a pouco fui criando intimidade, entendendo mais como avançar naquela condição e no momento em que parei para observar o Pão de Açúcar, uma enxurrada de pensamentos tomou conta da minha cabeça.

Será que eu perdi a capacidade de voar? Será que eu endureci, meus sonhos viraram rochas que estabeleci que devem ser construídas e por isso tanta tensão em cada passo naquela nova condição? O medo que senti pela possibilidade era o mesmo de todas as vezes em que estive diante de começar algo. A vontade de parar era unicamente regida pelo medo e nada mais. Deixa-los de lado e pegar a bicicleta. Mas se o fizesse, o que seria da vontade de andar neles? Isso me fez questionar se  transformei minha vida numa zona de conforto para nunca mais ter a sensação de que poderia cair. Nada parecia a meu favor com e exatamente por isso continuei. Por mais de uma hora. Sair da zona de conforto é sempre péssimo. A gente se minimiza, diminui a velocidade e se julga pensando no julgamento do outro, este que muitas vezes nem existe. A partir daí resta a cada um escolher permanecer nesse lugar limitador ou enxergar o medo como um desafio a ser vencido.

A sensação da queda (o que não aconteceu) é horrível quando a gente desaprende a cair. E isso é perigoso por que se a gente não souber cair, saberemos me levantar? Cair não é errado, não é feio. Ao invés de focar na queda, me mantive atento ao levantar. Pois é isso que acontece quando não nos limitamos, a gente se levanta e continua. Estar naquela condição me fez pensar nas surpresas que acontecem pelo caminho. Não estar endurecido para saber avançar em diferentes condições é essencial.

Se isso tudo foi um devaneio ou realmente um estalo para não endurecer pela vida eu não sei. E tais pensamentos não me deixaram infeliz. Pelo contrário! Sentir medo é como cair, faz parte e por mais que doa é apenas um momento muito rápido, se comparado a todas as coisas maravilhosas que nos aguardam quando não nos limitamos.

Cheguei em casa com vontade de patinar mais.

Ao som de Melanie C – Dear Life

 

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