O Felino e Eu

Desde criança sempre amei animais. Tive a chance de ter vários e posso dizer que, com cada um, aprendi algo. Passei por cães (com quem convivi grande parte da minha vida), hamsters, coelhos, patos, porquinhos da índia, pombos, codornas, peixes, caranguejos, gatos que dizia ser meus (Mas nunca foram) e até um morcego frutífero. Muitos deles merecem e terão histórias aqui apresentadas, mas não hoje. Além da convivência quase diária com bois, vacas, galinhas, porcos, cavalos (que  me orgulho em dizer que aprendi a cavalgar sem sela) e outros. Mas de uns anos pra cá, as coisas mudaram de uma maneira jamais esperada. Não deixei de ama-los loucamente, mas a paixão sem limites que tinha especificamente pelos cães, sabe-se lá por quê, diminuiu bastante. Se antes não via minha vida sem eles, hoje quase elimino a possibilidade de ter um. Por quê? Passou a me irritar a ideia dos passeios diários, a necessidade de carinho e atenção ao extremo e tudo mais que envolva grande disponibilidade de tempo. Me tornei um chato? Espero que não. Ainda os amo, mas o vínculo, neste momento, não posso cultivar.

Talvez como um ponto final (ponto final não, é muito definitivo e radical para algo tão positivo), ou melhor dizendo, um novo ar adentrou em minha vida na forma de um felino. Justamente o animal com qual tive o menor tempo de relação, na época em que tive os mais variados animais. Por anos a fio tentei ter um gato, mas nunca consegui. Acho que meu pai dava os filhotes que eu levava para casa e dizia que haviam fugido. Nenhum deles permaneceu por mais que alguns dias. Em meio a tudo isso, cresci e me mudei para outra cidade. Numa tarde, o telefone toca:

– Alô?
– Gerson, me ajuda a amansar a fera. Daniela vai ficar uma fera. Eu adotei um gato.
– Hã? Ahhahahaha como assim?
– Pois é. Me ajuda. Conversa com ela.
– Ai meu Deus. Qual o nome do gato?
– Aninha.
– Eeeee! Quero vê-la.
– Pois é. Daniela não sabe. Você bem que poderia estar aqui quando ela chegasse.

Desligamos o telefone. Há muito ela vinha falando sobre ter um gato, mas sua irmã, na época, não parecia gostar da ideia. E como me tornei amigo de Adriana após os longos anos de amizade com Daniela, a melhor pessoa para tentar ajuda-la, com certeza, seria eu. E também a chance de receber um grito super sônico que explodiria meus ouvidos. Não lembro o que aconteceu, mas quando liguei para a casa delas à noite, Daniela já tinha se deparado com Aninha. Agora seria aguentar o grito do furacão, rss. Apesar do choque inicial, as coisa saíram melhor do que o esperado.

Aninha era uma gata adulta e sem uma das patas dianteiras, talvez por isso seu eterno mau-humor. Não gostava muito de ser carregada e olhava para nós como se a qualquer momento pudesse nos dilacerar. Ok, estou exagerando, ela era séria e nada mais. E seria injusto da nossa parte exigir um comportamento feliz sem saber sobre seu passado. Visto que não tinha uma perna, certamente um sinal das muitas situações desagradáveis que deve ter vivido.

Como frequentava a casa das meninas quase que diariamente, meu contato com Aninha foi se intensificando, mesmo ela me ignorando. Mas ao longo das semanas foi se acostumando e de acordo com até onde podíamos ir, nos tornamos amigos. Ela engordou, ficou bonita, seu pelo tinha brilho, sinais de como feliz na nova casa. Porém, seu mau-humor era eterno, rsss. Mas o que fazer? Nada além de aceitar. Sempre pensei se animais como Aninha carregam uma tensão eterna, devido à possibilidade de que o pior pudesse acontecer a qualquer momento. Após um bom tempo, ela se deixou ser carregada pelas meninas. No meu colo, somente quando ela queria. No mais, brincava de dar cambalhota em meus pés.

Conviver com um animal pode ser mais complexo do que parece, principalmente quando estamos acostumados a iniciar uma relação com eles ainda filhotes. Ali não, existia uma história que ninguém jamais saberia e tínhamos de conviver com isso.

Já que Aninha era de Adriana, Daniela resolveu também ter uma gata, o que seria ótimo para Aninha, afinal, uma companhia da mesma espécie. Fomos a um gatil e juntos escolhemos uma gata linda, branca, com uma mancha preta no rosto e pelo tão denso que parecia sorvete de coco. Final da tarde, lá estávamos com ela no apartamento. Seu nome? Mina (por causa de Mina Harker, de Drácula). Acho que demorou mais de uma semana para ela sair debaixo da cama.

Acho que Mina foi o gato mais assustado com qual convivi. Você espirrava e ela desaparecia. A gata feita de sorvete de coco trazia consigo mais uma história desconhecida. E lá vamos nós, aprender a se relacionar com o desconhecido. Ao longo do tempo ela foi se desarmando. Agora Mina adorava colo, carinho na barriga e sempre nos observava de forma engraçada. Impossível olhar pra ela e não rir ou inventar o pensamento que estivesse passando por aquela cabeça. E assim foi. Ela também engordou (A ponto de parecer ter engolido uma galinha, rsss), teve de seguir dieta e emagreceu. Porém o pelo branco jamais ficou fosco.

Os anos passaram e nossa relação com elas se intensificou de forma absurda. Aninha e seu mau-humor eterno, com direito a histórias de que do toquinho que restou de sua perna, retiraria um canivete e mataria todos nós, enquanto Mina parecia nos enxergar como um parque de diversões de possibilidades infinitas.

Os anos passaram e, como sempre acontece, chegaram no limite de suas vidas. Claro que é triste enterrar um animal querido, mas elas tiveram uma história desconhecida com final feliz e isso é o mais importante.

Pouco antes, chegou Nino, o primeiro filhote que elas encontraram na porta de uma igreja e depois Maya (Tenho quase certeza de que ela esconde um segredo, mas isso fica pra outro post). Sem perceber, acabei criando uma relação com gatos que nunca foram meus e, hoje, acho que entendo o por que do fascínio por eles e do meu distanciamento dos cães.

Vi que minha relação com os gatos tinha uma ligação direta com vários pontos importantes da minha vida. Não aguento relacionamentos que exigem carinho como se não houvesse amanhã. Não gosto de gente pegajosa. Gosto de estar perto de quem gosto, mas não grudado como um irmão siamês, chamando a atenção o tempo todo, fazendo tudo juntos o tempo todo. Gosto de estar no meu canto, mesmo que dividindo o mesmo teto, preservar minha individualidade. Se aproximar quando dá vontade e retomar meu foco sem desculpas ou cansaços. Simplesmente por que quero.

Admiro e me conquistam pessoas que têm uma história, que chegam até você sem vergonha de dividir afeto e com a mesma facilidade, se afastam para fazer o que deve ser feito. Que mantém sua individualidade, não importa quanto tempo fiquemos juntos. Que conseguem isso até quando estamos há dias dentro de um quarto. Que transpareçam a certeza de que não é preciso estar grudado, ou encoleirado, para estar juntos.

Gatos não usam coleiras. Eu odeio coleiras. Odeio a sensação de saber até onde posso ir quando delimitado pelo outro. Melhor ficar sozinho. Se ali estou, é por que escolhi. Gatos são isentos de excesso de carência. Eles chegam, mostram-se presentes e ponto. Gatos andam sem fazer barulho. Se enroscam em nós debaixo das cobertas sem que percebamos. Não babam. Banham-se sozinhos. Aprendem sem esforço onde devem fazer suas necessidades. Caçam insetos e pequenos animais que possam adentrar na casa. Te presenteiam com suas caças. Cada um tem sua maneira de demonstrar afeto e respeito. Gatos não são frios, não são enviados do demônio, entidades demoníacas ou representantes do mal. São flexíveis. Agem sabendo o que quer.

Gatos parecem saber bem a diferença entre viver para alguém e viver com alguém.

Manifestam-se como e quando querem, o que não significa que não te amam enquanto brincam noutra parte da casa ou dormem dentro da caixa mais esquisita que encontraram vazia. Gatos não imploram, não pedem, nem aceitam qualquer coisa.

Se gatos usassem celular para enviar mensagens, acho que seriam algo como: – Coloque mais ração ao chegar. – Estou com saudades. – Divirta-se. – Você vai ver só. – Você viu minha bolinha? – Tenho uma surpresa pra você. – Estarei dormindo em algum lugar da casa, então me afague quando chegar.

E nos momentos menos esperados, alguma ironia. Gatos têm senso de humor refinado. Recados na caixa postal? Acho que não. Isso não é uma regra, uma cartilha, um manual sobre o significado das relações com tais animais. Muito menos uma minimização dos cães. Trata-se do que aprendi com os felinos e como minha relação com os mesmos reflete/significa em minhas escolhas, preferências, desejos e ações. Com quem você preferiria estar? Uma pessoa segura de si ou alguém que implora amor? Cães e gatos (e qualquer outro animal) são universos distintos que merecem ser vividos e respeitados. Uma experiência única que nos engrandece. Gostar mais de um não nos torna melhor ou pior. É apenas uma identificação. Uma experiência singular.

Hoje, me identifico mais com os felinos.

Ao som de Texas – Never Never

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